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Estão todos prontos para Hillary Clinton, mas a última palavra é dela

Estão todos prontos para Hillary Clinton, mas a última palavra é dela.

Por Catarina Falcão

A campanha de Hillary Clinton já tem tudo para concorrerà Casa Branca. Só falta o sim da candidata

A dois anos das presidenciais norte-americanas, Hillary Clinton tem tudo a postos para se lançar para a Casa Branca. Já conta com um movimento de angariação de fundos chamado "Ready for Hillary" - que arrecadou mais de 4 milhões de euros em doações no ano passado -, tem a máquina que elegeu Obama em 2008 e 2012 a trabalhar para si, foi capa da "Time" e da revista do jornal "The New York Times" nas últimas semanas, foi eleita a pessoa mais fascinante dos últimos 20 anos pela lendária Barbara Walters e já é mais popular que o seu provável adversário republicano, o governador de Nova Jérsia, Chris Christie - tudo isto sem sequer ter dito ainda se vai ou não concorrer em 2016. O caminho para a Casa Branca parece estar escancarado, mas só Hillary pode decidir-se a percorrê-lo.

Afastada dos grandes palcos políticos desde que abandonou a secretaria de Estado há um ano - uma situação improvável para o casal Clinton que, pela primeira vez em 40 anos, não detém nenhum cargo público - para escrever sobre o seu tempo à frente da política externa norte—americana, Hillary Clinton tem voltado, discreta mas assertivamente, às lides políticas apoiando candidatos estratégicos em diversas eleições intermédias. Em Outubro esteve ao lado de Terry McAuliffe, então candidato a governador da Virgínia, e Bill Clinton acompanhou de perto a nomeação improvável de Bill de Blasio para candidato democrata a mayor de Nova Iorque. O casal fez a dobradinha e tanto McAuliffe como Blasio ganharam - vitórias largamente atribuídas ao factor Clinton. Num dos comícios na Virgínia, Hillary fez o seu primeiro discurso político numa campanha em cinco anos - os últimos tinham sido em 2008, quando apelou ao voto em Obama após desistir da corrida presidencial - e a recepção dos americanos não podia ter sido mais clara. "Tive oportunidade de pensar muito sobre o que torna o nosso país tão formidável. E sobre que tipo de liderança é que precisamos para mantê-lo dessa forma", dizia Hillary, sendo interrompida por gritos da multidão: "A sua, a sua, a sua."

Nem aclamações populares nem apoios por parte dos seus pares, nomeadamente dos democratas mais ansiosos, parecem apressar Hillary. A Barbara Walters, jornalista lendária da TV americana, ao ser considerada a figura mais fascinante dos Estados Unidos nos últimos 20 anos, Hillary Clinton disse não ter decidido ainda sobre a sua candidatura e que a resposta ficaria talvez para 2014.

CAMPANHA SEM CANDIDATA O mais aguerrido apoiante de Hillary Clinton será a PAC - ou political action committee, em português, comissão de acção política, um tipo de organização existente nos EUA, independente dos partidos, que angaria fundos para campanhas e tem de se registar na Comissão Federal de Eleições - "Ready for Hillary". Esta PAC de apoio a Clinton nasceu em Janeiro do ano passado e conta hoje com 1,7 milhões de apoiantes, tendo já recolhido mais de quatro milhões de dólares em donativos. As suas actividades incluem desde a organização de comícios à recolha de donativos, venda de merchandise (copos, roupa, capas para o telemóvel) e buzz, muito buzz nas redes sociais - a organização tem duas hashtags a correr no Twitter, #DMVisREADY e #Hillary2016.

Seth Bringman, director de comunicação desta PAC, disse ao i que o principal objectivo da organização é "aproveitar o apoio já existente a Hillary Clinton de modo que, se decidir concorrer às presidenciais de 2016, ela tenha o apoio constante de um exército popular", corrigindo assim os erros de avaliação em termos de apoio que aconteceram na campanha falhada de 2008.

Entretanto, a operação que começou "com dois voluntários" tem vindo a crescer e já conseguiu fortes apoios no meio político: Craig Smith, antigo director político de Bill Clinton, Jennifer Ganholm, ex—governadora do Michigan e a senadora Claire McCaskill são algumas das personalidades que já afirmaram estar prontas para Hillary Clinton em 2016 e integram esta PAC. Entre quem acorre aos comícios da "Ready for Hillary", as motivações para este apoio antecipado são variadas. "Algumas das razões mais populares incluem o seu trabalho como secretária de Estado e o seu papel na defesa das mulheres, das crianças e das famílias", aponta Bringman.

Outra das lições a tirar de 2008 foi que Hillary Clinton não soube tirar proveito do trabalho que tem vindo a desenvolver em prol dos direitos das mulheres e das crianças nos últimos 20 anos. A passagem do eleitorado feminino para Obama foi uma das principais razões da sua derrota e os estrategos políticos apontam que, a existir, a sua campanha deverá ser mais focada nas mulheres.

Há duas semanas, a putativa campanha de Hillary recebeu o seu maior apoio até agora. A maior PAC democrata dos EUA, a "Priorities USA Action", que teve um papel fulcral na eleição de Obama em 2008 e na sua reeleição em 2012, já está a trabalhar para eleger Clinton em 2016. Na equipa desta super PAC está Jim Messina, o gestor da campanha de Obama em 2012. Este apoio declarado foi entendido pelos meios de comunicação norte-americanos como um pré-lançamento da campanha, já que, enquanto a "Ready For Hillary" recolhe donativos junto de cidadãos individuais, a "Priorities" é conhecida por angariar cheques de seis e sete algarismos para as campanhas democratas.

Do outro lado da barricada, a resposta não se fez esperar. Os republicanos também já têm várias PAC para combater a possibilidade de a ex-secretária de Estado concorrer em 2016. Uma das mais bem sucedidas é a "Stop Hillary", que quer assegurar que Clinton "nunca se tornará presidente", alegando que os EUA não sobreviverão a mais um mandato de "liberalismo radical" e que daqui a dois anos será "demasiado tarde" para parar a candidata democrata.

OS OBSTÁCULOS Mesmo assim, da parte de Hillary, até agora a resposta é nim. Não ir a jogo nunca foi uma hipótese para os Clinton, que desde 1974 - a primeira corrida mal sucedida de Bill Clinton ao Congresso - fizeram dos ciclos de campanha em alternância com o exercício de cargos públicos um modo de vida. Se concorrer, Hillary Clinton será um dos candidatos mais bem preparados na história dos Estados Unidos. Não só conhece por dentro e por fora os meandros da Casa Branca e a sua complexidade - foi a primeira primeira-dama desde Eleanor Roosevelt a ter um gabinete na Casa Branca e terá sido ela a escolher alguns dos conselheiros mais próximos de Bill Clinton, assim como membros dos seus executivos -, como cumpriu dois mandatos como senadora de Nova Iorque e foi secretária de Estado da administração de Obama.

Mas conhece também o reverso da medalha. O custo pessoal do escândalo sexual de Bill Clinton e as consequências para a sua família, a candidatura frustrada em 2008 ou o ataque em Benghazi, que vitimou dois diplomatas norte- -americanos e dois agentes da CIA - cuja culpa assumiu em pleno e que reconheceu esta semana ser o seu "maior arrependimento" -, abalaram a vida pessoal e pública da ex-secretária de Estado (ver gráfico com os seus principais momentos na página anterior).

Além disto, em 2016 Hillary terá 69 anos, mais 14 que o presidente cessante (e será mais velha que todos os possíveis candidatos democratas e republicanos). Isto significaria uma regressão geracional na Casa Branca, assim como o retorno ao poder dos baby boomers. Este retrocesso não é visto por muitos com bons olhos e faz com que o próprio Partido Democrata, especialmente a ala mais liberal, olhe com receio para a candidatura de Clinton. "A única ressalva é que raramente voltamos uma geração para trás. Ela é da minha geração, não da próxima geração, da geração de Barack Obama. E, por isso, acho que é essa é a única fraqueza que ela realmente tem" disse Howard Dean, ex-governador do Vermont.

Há ainda a colagem a Obama. Se, por um lado, Hillary pode recolher votos dos apoiantes fiéis ao actual presidente, ter pertencido e apoiado esta administração que prometeu mudança, mas acabou por mudar muito pouco, pode sair caro. Os níveis de desemprego, as polémicas com o Obamacare e o aprofundamento das desigualdades sociais no país podem motivar contestação.

AFUGENTAR A CONCORRÊNCIA A esta distância da eleição, Hillary bate aos pontos tanto os candidatos internos do Partido Democrata como os candidatos republicanos. Numa sondagem da televisão ABC e do jornal "Washington Post", Hillary recolhe 73% das preferências entre os outros possíveis candidatos democratas - Joe Biden, vice-presidente, tem 12%, mas em 2016 terá 74 anos e será pouco viável que concorra, enquanto Elizabeth Warren, senadora do Massachussets, tem 8% (ver ao lado possíveis candidatos). Quando colocada num frente-a-frente com o principal candidato republicano, o governador de Nova Jérsia, Chris Christie, Hillary ganha por 46% contra 38%.

Mas, mesmo com estes resultados, Hillary não é consensual entre os democratas. A sua posição favorável à guerra do Iraque enquanto senadora não sossega a ala mais à esquerda do partido. A sua política externa é vista como demasiado conservadora e a sua relação com o poder financeiro, especialmente com milionários de quem é amiga, é percepcionada como demasiado próxima dos interesses da banca. A dificuldade está em encontrar um oponente à altura nos democratas.

Elizabeth Warren podia ser uma boa candidata mas, para além de já ter garantido que não irá concorrer, o entendimento geral é que nenhuma mulher entrará na corrida contra Hillary para não dividir o voto feminino à partida. Do lado masculino, para além de Biden, os nomes possíveis ainda estão em aberto. Para aquecer a corrida nas primárias e preparar o embate com os republicanos, a nomeação não será oferecida a Hillary e conta-se com três ou mais adversários - uma sondagem no Iowa, primeiro Estado no calendário das primárias, mostra que Hillary tem 89% da opinião favorável destes eleitores.

Do lado dos republicanos, que tinham Chris Christie como uma figura destacada para as eleições, a escolha ficou mais difícil depois da denúncia da participação do senador numa vingança política que atrapalhou a ordem pública e o governador afunda-se agora nas sondagens. Jeb Bush, Ted Cruz - a coqueluche do Tea Party - ou Rand Paul são agora hipóteses mais fiáveis. Também Paul Ryan, que se candidatou a vice-presidente com Mitt Romney em 2012, tem demonstrado bons níveis de aprovação.

QUEBRAR O TECTO Talvez a maior motivação - e o que, no fim de contas, levará Hillary a seguir em frente - não seja a sua experiência em cargos públicos, a possibilidade de uma campanha fácil ou o instinto perdigueiro dos Clinton para o poder. Tudo isso contará, mas fazer história ao tornar-se a primeira mulher presidente dos EUA e quebrar o derradeiro tecto de vidro pode ser mais aliciante do que qualquer percalço que lhe surja no caminho.

"Eu penso que é importante [ter uma mulher como presidente]. Não sei quando será, nem quem será, mas no Chile Michelle Bachelet foi eleita novamente, no Brasil está Dilma Rousseff, que eu admiro imenso, Angela Merkel é o líder mais importante da Europa. É uma coisa que importa, porque representa a metade da nossa população que deu tanto para construir este país. E se olharmos para o Senado, foram as mulheres que acabaram com o impasse fiscal e têm trabalhado em conjunto, independentemente do partido. Precisamos de ter mais disto", disse Clinton a Barbara Walters.

Mas se, em 2008, a questão do género se sobrepôs muitas vezes aos assuntos centrais da campanha, prejudicando Hillary, porque é que desta vez será diferente? A "Ready for Hillary" acredita que, independentemente de ser mulher, Clinton "é a pessoa mais qualificada para o cargo". Mas admite que, ao ganhar, "ela faria história e enviaria uma mensagem forte, não só aos EUA, mas para todo o mundo".

Esta opinião é partilhada pelo Lóbi Europeu das Mulheres , uma organização que luta pelos direitos das mulheres, pressionando instituições europeias a legislar contra a discriminação e a favor da igualdade de género. "Ter uma mulher como presidente dos EUA seria um sinal importante para a representação igual de homens e mulheres em cargos de decisão, especialmente na esfera política. Se Hillary Clinton fosse a próxima presidente dos EUA, ela traria também a perspectiva de género para a política, já que é conhecida por defender os interesses das mulheres, podendo assim colocar estas questões como prioritárias na sua agenda política."

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Loud and United to end violence against women and girls, European Women’s Lobby Conference, 6 December 2017, Brussels.

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